01 janeiro 2012

Argumentos contra o suicídio

Rubens Santini de Oliveira

“O telefone toca... O plantonista atende...

Uma pessoa deseja morrer. Ingeriu comprimidos, deseja morrer conversando com alguém e espera que o plantonista possa ser esta pessoa, possa representar este outro para que não esteja só nesta passagem.
O plantonista arrisca perguntar se está certo de que‚ isto que realmente quer, se não gostaria que lhe fosse enviado socorro. A pessoa recusa, não quer voltar atrás e pede ao plantonista que fale com ela. A voz atenua-se... o telefone cai”.(*)

PARTE I
“Tentar compreender por que uma pessoa, de maneira impulsiva ou cuidadosamente planejada, escreve dizeres amorosos na sola do sapato para um namorado e se atira do viaduto do Chá; ou acomoda seu revólver numa morsa de oficina, na garagem de sua residência, coloca a cabeça diante da arma e dispara; ou amarra um cordel de náilon no teto do banheiro e se enforca; ou ingere dezenas de comprimidos de uma só vez; ou por que uma criança se joga da janela do décimo andar; ou, ainda, por que um padre acende as seis bocas do fogão na cozinha de um colégio, deitando-se sobre elas carbonizando-se, não é, absolutamente, tarefa fácil.
Foi numa tentativa de elucidar alguns fatores que possam estar em jogo na vivência destas pessoas, no momento em que decidem se matar, que este trabalho nasceu”.(**)

Por que as pessoas se matam?
O que poderá levar o homem a recorrer a esse ato tão irracional?
(1) Falta de Fé? - é a total descrença de uma outra vida após a morte. Tem a ilusão de que, provocando a própria morte, será o fim de todo o sofrimento e o início de um eterno sono profundo. É a falta de Espiritualidade e da crença nas obras do Criador.
(2) Orgulho ferido? - Pode ser considerado, também, como falta de fé, porque a fé‚ conduz à humildade, e esta é inimiga do orgulho.
(3) Tédio da vida? Muitas vezes, as pessoas não conseguem definir um objetivo em sua vida. No fundo, é ausência da fé para suportar as provas que a vida lhe impõe. As dificuldades são tantas, e não encontrando forças para sair do marasmo, a pessoa acaba se entediando. Quem tem fé não deserta da vida, pois sabe que os recursos Divinos são inesgotáveis. E a oração é o maior dos instrumentos para se conseguir que essa ajuda venha dos Planos mais Altos.
(4) Medo do fracasso? - Medo de ser humilhado, ironizado por não ter sido um vencedor. No fundo, todos os problemas que levam as pessoas ao suicídio é a falta de fé, é a fragilidade espiritual.
O nosso propósito, através desse trabalho, é fazer uma abordagem psicológica e espiritual do suicida, e quais são os motivos que o levam para tal ato.

PARTE II

“Há alguns anos, conheci Aparecida. Havia ingerido um poderoso agrotóxico e estava viva apenas graças à rapidez do socorro, uma diálise renal.
Sorria-me, sem graça, na expectativa do que ia fazer.
- O que houve Aparecida?
- Eu só ia dar um susto no meu marido. Tínhamos brigado.
- Você não sabia que poderia morrer?
- Pensei que aquilo só matava bicho sem osso...
Na sua simplicidade, Aparecida me dizia que não queria morrer. Ela tinha “ossos”, um esqueleto interno, mental, que a prendeu à vida.
Já outros suicidas têm um “esqueleto” mais frágil. E não suportam as vicissitudes da vida, mais ainda quando ela os frustra e lhes causa sofrimentos.
Existem sofrimentos que fazem parte da vida e há aqueles desnecessários. Muitos de nós não nos satisfazemos com os que já existem (e, muitas vezes, são tantos!). E procuramos outros. Como complicamos nossas vidas, como que atraídos pelo sofrer!
Não seria isto uma espécie de suicídio?”

“Nesta vida, morrer não é difícil. O difícil, é a vida e o seu oficio.”(Maiakvóski)

PARTE III

O suicídio através do tempo

“O suicidio, desde a Antiguidade, sempre foi punido severamente. Plutarco, um antigo historiador, nos conta o seguinte:

Moças passam a enforcar-se e logo apresenta uma “epidemia” de suicídio de jovens. Nenhuma medida fez com que ela cesse, até que alguém propõe que as jovens sejam condenados a terem seu cadáver levado nu, em passeata, até o cemitério. Com essa medida, a “epidemia” se extingue.”
“Em Tebas e Chipre, o morto era privado de honras fúnebres. Em Atenas, no século IV, cortava-se a mão direita daquele que cometera o suicídio. Esta era enterrada distante do resto do corpo do individuo de forma a evitar uma posterior vingança do morto. O objetivo era desmanchar seu estratagema, destituí-lo de poder, da capacidade de assassinar os vivos. Ainda no século IV, Santo Agostinho assinala que o suicídio era uma “pervesão detestável” e “demoníaca”, e que o “não matarás” estendia-se também a “não matarás a si próprio”. A Igreja utilizava todos os recursos disponíveis para a repressão ao suicídio. Outras religiões também condenavam o suicídio, como é o caso da judaica, com a prática de enterrar o corpo do suicida em sepultura à parte.”
“O suicídio do presidente Getúlio Vargas implica, não só um ato de vingança contra seus inimigos, que se sentiram culpados e responsáveis, mas principalmente, o objetivo do suicido foi a permanência de Vargas influenciando os sobreviventes, como numa vida pós-morte: “saio da vida para entrar na História”, escreve em sua carta-testamento.”
“Em novembro de l978, houve um suicídio coletivo de 913 pessoas na Guiana, seguidoras da seita Templo do Povo, do pastor americano Jim Jones. Eles se envenenaram com cianureto, enquanto seu líder deu um tiro na própria cabeça.”
“No primeiro semestre de 1986, o número de adolescentes suicidas cresceu no Japão. A policia atribuiu o fato à morte da cantora pop Yokiko Okada, então com 18 anos, que se jogou de uma altura de 7 andares. Foram registrados 30 suicídios entre adolescentes no país, após o acontecimento.”
“Personagens fictícios da literatura também inspira este tipo de gesto. Em 1774, o lançamento do livro “Werther” do poeta alemão Goethe, provocou uma onda de suicídio na Europa. Motivo: a identificação com o destino do personagem-título do livro, que se mata com um tiro por amor. A “epidemia” de suicídio foi tão longe que várias pessoas, na maioria jovens se matavam envergando casacos azuis e colete amarelo, as roupas que o personagem usava no final do livro.”
“Romeu e Julieta, da obra de Shakekspeare, assim como tantos Romeus e Julietas da vida real, se matam para vingar-se de seu ambiente e das pessoas que estão ao seu redor”
(Publicado no Boletim GEAE Número 332 de 16 de fevereiro de 1999)

PARTE IV

O desejo de vingança
“Geralmente, os suicidas fantasiam a reação dos vivos perante à sua morte: o sentimento de tristeza, remorso e culpa.
O suicida elimina sua vida, paga com ela, mas não está totalmente consciente disso, o prazer de tornar real sua fantasia de vingança, de causar sofrimento aos outros.
Muitas vezes, ele nem deseja a morte, mas sim uma nova vida, em que a pessoa se sinta querida, seja importante. O final fantasiado, se possível, é que aquelas pessoas de quem se imagina que veio o maltrato, se sintam culpadas e com remorso.
Então, o suicida, como que ressuscitaria, todos se desculpariam e a vida continuaria num final feliz.
Existe uma independência entre o desejo de morrer e o de matar-se. A pessoa que se mata não quer necessariamente morrer, pois nem sabe o que seja isso. Ela se mata porque deseja uma outra forma de vida, fantasiada. Nessa outra vida ela encontra amor ou proteção, se vinga dos inimigos, reencontra pessoas queridas.

Uma anedota nos mostra uma pessoa que jogou-se num rio querendo matar-se. Enquanto se debate na água, recusa cordas e bóias que as pessoas lhe jogam da margem. Finalmente, um policial a ameaça com um revolver: “ou você sai daí ou te dou um tiro”. O suicida em potencial, que quer matar-se, não quer ser morto, e sai da água...

A anedota é verdadeira, e nos leva a um outro aspecto do suicida. O individuo quer morrer, mas também quer viver, ele está em conflito, e comumente uma ajuda ou até uma ameaça (como no caso) podem decidir a direção que vai ser tomada.
O suicida sofre e faz sofrer. Ele não sabe o que é morte. O que o suicida procura é escapar de um sofrimento insuportável, real ou fantasiado, interno ou externo. E o ato suicida é uma mensagem, uma maneira de comunicar suas dores e pedir ajuda”.

PARTE V

Depressão e melancolia induz maioria dos suicídios.
“Distúrbios psiquiátricos são a causa mais freqüente das tentativas de suicídio, e dos suicídios propriamente ditos.
Entre esses distúrbios, a depressão e a melancolia são os maiores culpados.

A estudante de Direito, Patrícia, 21 anos, não tem o menor problema de falar sobre a sua tentativa de suicídio, aos 15 anos, pois hoje acha que o que fez foi uma bobagem, “coisa de adolescente”.“Eu estava muito triste, não me dava bem com os amigos e com a família”, diz. A garota tomou uma cartela de antidepressivos. “Na hora eu não pensei claramente em morrer, só sentia vontade de fugir de tudo”.Patrícia foi encontrada em seu quarto por sua mãe.“Contei tudo a ela. Fomos ao hospital e fiz uma lavagem”.

O uso excessivo do álcool e de drogas também podem levar ao suicídio. Sob seus efeitos, as pessoas perdem parcialmente a noção do que fazem, e podem acabar se matando.
Dúvidas com relação à personalidade ou grandes perdas também podem levar a pessoa ao suicídio. Dúvidas em relação à sexualidade e conflitos com a família são exemplos comuns”.

PARTE VI

O suicida inconsciente
“Suicidio é, traduzindo-se a palavra: morte de si mesmo. Esta definição parece suficiente, num primeiro momento. Mas, quando começamos a refletir sobre as maneiras e mecanismos como as pessoas podem matar-se ou contribuir para sua própria morte, percebemos que se trata de uma conceituação muito ampla, em que podemos incluir muitos atos e comportamentos que normalmente o leigo não imagina que se trata de suicídio.

Vejamos alguns exemplos:
Imaginemos um fumante inveterado, já com problemas pulmonares e cardíacos, conseqüências do fumo, que sabe que se não parar morrerá em pouco tempo. E geralmente não pára de fumar ou não consegue. É evidente que está contribuindo para sua própria morte. O mesmo vale para os alcoólatras, o viciado em drogas e mesmo para quem insiste em ingerir alimentos que lhe farão mal.
Há pessoas que gostam viver perigosamente. Na maioria das vezes não estão conscientes dos riscos que correm, ou mesmo que conhecem, acreditam impunes a eles. Corredores de automóveis, alpinistas são um bom exemplo.
Algumas pessoas levam formas de vida em que, por problemas psíquicos ou psicossociais, se sobrecarregam física e/ou emocionalmente. Vivem constantemente em tensão e muitas vezes acabam criando uma doença em seu organismo, existindo um componente emocional ligado à impulsos de autodestruição. A doença será a resultante da interação entre os instintos de vida e de morte (estes exacerbados). Isto é, mais evidente no caso de moléstias que se costumam chamar psicossomáticas: a hipertensão arterial, o enfarte do miocárdio, a úlcera gastroduodenal, a asma brônquica, ... O componente psicológico também é claro nas doenças infecciosas, no câncer e nas doenças auto-imunes.”

PARTE VII

Os suicídios por fracasso
“Quando se trata de pessoas de estratos sociais médios e altos, é muito provável que a competição desenfreada, a necessidade de status e poder, a valorização das pessoas pelo que têm, o estímulo ao consumismo, etc, fazem com que elas passem a viver numa roda-viva, em que sempre querem mais e estão sempre se comparando com os outros. E esses valores são estimulados pela nossa sociedade. Surgem então as tão conhecidas figuras do tipo “vencedor”, isto é, aquele individuo, com grande capacidade de trabalho e adaptação às circunstâncias, e que usa qualquer meio, ético ou não, para adquirir mais poder, prestígio e dinheiro. Muitas empresas estimulam a competição entre seus funcionários, reproduzindo em menor grau o que acontece na sociedade.
Alguns “vencedores”, quando atingem o auge, entram em depressão, a “depressão do sucesso”, porque não havendo mais nada para conseguir, não há mais objetivos, e só sobram o tédio, a monotonia e a tristeza. E outros, ainda, entram em decadência, ou porque não conseguem mais acompanhar mudanças rápidas, devido à idade, ou pela entrada de novos competidores mais jovens. Acabam também com depressão por fracasso.
O suicídio pode ser uma saída, se o fracasso é sentido como humilhante, insuportável. Devemos lembrar, por outro lado, que esses indivíduos só viveram para sua ambição e trabalho, e seus laços familiares ou afetivos são muito frágeis.
Quando fracassam, se percebem sozinhos, pois suas “amizades”, “mulheres”, “badalações” e “nome em colunas sociais” eram apenas o resultado do aproveitamento do seu status por outras pessoas gananciosas. Procurem prestar atenção em políticos ou pessoas que foram muito poderosas, quando perdem esse poder. Geralmente envelhecem e morrem pouco depois. É como se não tivessem mais por que viver, suicidando-se inconscientemente. E, alguns de forma intencional”.

“Karl Menninger, autor de “Eros e Tanatos: O homem contra si próprio”, nos diz: “Em lugar de combater seus inimigos, tais pessoas combatem (destroem) a si próprios”. Assim, o suicídio é um homicídio, onde o individuo que mata é também a própria vítima”.

PARTE VIII

A visão da Doutrina Espírita

Selecionamos as seguintes perguntas feitas por Kardec aos Espíritos Superiores, à respeito do suicídio:

P-944: O homem tem o direito de dispor da sua própria vida?
R: Não; somente Deus tem esse direito. O suicídio voluntário é uma transgressão da Lei.
P-946: Que pensar do suicida que tem por fim escapar às misérias e às decepções deste mundo?
R: Pobres Espíritos que não tiveram a coragem de suportar as misérias da existência! Deus ajuda aos que sofrem e não aos que não têm forças, nem coragem. As tribulações da vida são provas ou expiações. Felizes os que suportam sem se queixar, porque serão recompensados.
P-948: O suicida que tem por fim escapar à vergonha de uma ação má é tão repreensível como o que é levado ao desespero?
R: O suicídio não apaga a falta. Pelo contrário, com ele aparecem duas em lugar de uma. Quando se teve coragem de praticar o mal, é preciso tê-la para sofrer as conseqüências. Deus é quem julga. E, segundo a causa, pode às vezes diminuir o seu rigor.
P-949: O suicídio é perdoável quando tem por fim impedir que a vergonha envolva os filhos ou a família?
R: Aquele que assim age não procede bem, mas acredita que sim e Deus levará em conta a sua intenção, porque será uma expiação que a si mesmo se impôs. Ele atenua a sua falta pela intenção, mas nem por isso deixa de cometer uma falta. De resto, se abolirdes os abusos da vossa sociedade e os vossos preconceitos, não tereis mais suicídios. Aquele que tira a própria vida para fugir à vergonha de uma ação má, prova que tem mais em conta a estima dos homens que a de Deus, porque vai entrar na vida espiritual carregado de suas iniqüidades, tendo-se privado dos meios de repará-los durante a vida. Deus é muitas vezes menos inexorável que os homens: perdoa o arrependimento sincero e leva em conta o nosso esforço de reparação; mas suicídio nada repara.
P-956: Os que, não podendo suportar a perda de pessoas queridas, se matam na esperança de se juntarem a elas, atingem seus objetivos?
R: O resultado para elas é bastante diverso do que esperam, pois em vez de se unirem ao objeto de sua afeição, dele se afastam por mais tempo, porque Deus não pode recompensar um ato de covardia e o insulto que Lhe ‚ lançado com a dúvida quanto à Sua providência. Eles pagarão esse instante de loucura com aflições ainda maiores do que aqueles que quiseram abreviar, e não terão para os compensar a satisfação que esperavam.

O drama de Camilo Castelo Branco
“Eloquente é também o epílogo do drama que foi a vida do grande escritor português Camilo Castelo Branco. Obsidiado, pessimista, médium que jamais deu valor ou prestou atenção às suas faculdades mediúnicas, nem mesmo aos notáveis fenômenos ocorridos na sua desregrada existência, ele próprio preparou o seu triste fim.
Dispondo de grande cultura, um tanto habituado aos trambolhões da vida, que ele nunca soube bem viver, velho hepático e não menos dispéptico, foi atingido por um mal de olhos que o levou gradativamente às fronteiras da cegueira completa.
Sempre esperançado de melhoras ou cura, foi passando o tempo, até conseguir consultar-se com um abalizado especialista, que o foi examinar na própria residência e de que esperava a última palavra decisiva sobre o mal. Isso em junho de l890. Tratava-se de um caso perdido, de irremediável cegueira. Ouvindo a terrível revelação, Camilo Castelo Branco, que já pensava diversas vezes em suicídio, deu um tiro na cabeça meses depois.

Eis sua carta de despedida:
“Em 26 de novembro de l890. 10 horas da noite.
Os inenarráveis padecimentos que se vão complicando todos os dias levam-me ao suicídio - único remédio que lhes posso dar. Rodeado de infelicidades de espécie moral, sendo a primeira insânia de meu filho Jorge, e a segunda os desatinos de meu filho Nuno, nada tenho a que me ampare nas consolações de família. A mãe desses dois desgraçados não promete longa vida; e se eu pudesse arrastar minha existência até ver Ana Plácida morta, infalivelmente eu me suicidaria. Não deixarei cair sobre mim essa enorme desventura - a maior, a incompreensível à minha grande compreensão da desgraça. Esta deliberação de me suicidar vem de longe, como um pressentimento. Previ, desde os trinta anos, este fim. Receio que, chegando o supremo momento, não tenha firmeza de espírito para traçar estas linhas. Antecipo-me à hora final. Quem puder ter a intuição das minhas dores, não me lastime. A minha vida foi tão extraordinariamente infeliz que não podia acabar como a da maioria dos desgraçados. Quando se ler este papel, eu estarei gozando a primeira hora do repouso. Não deixo nada. Deixo um exemplo. Este abismo a que me atirei ‚ o “terminus” da vereda viciosa por onde as fatalidades me encaminharam. Seja bom e virtuoso quem o puder ser”.

Mergulhado por esse trevoso salto no insondável abismo do suicídio, o incauto e orgulhoso literato, defrontou-se com as terríveis e irrecorríveis realidades do Além-Túmulo, onde o Espírito se choca com a muralha inderrocável das leis eternas que regem a verdadeira vida.
Longe de encontrar o repouso que vaidosamente a si próprio anunciara e prometera, o pobre escritor encontrou sofrimento, remorso, dores, cárcere de visões aterradoras, um cenário de expiações dolorosas.”

O Vale dos Suicidas
“...região composta por vales profundos, com gargantas sinuosas e cavernas sinistras, no interior dos quais uivavam demônios enfurecidos, Espíritos que foram homens dementados pela intensidade e estranheza, verdadeiramente inconcebíveis, dos sofrimentos que os martirizavam. O solo coberto de matérias enegrecidos e fétidos, lembrando a fuligem, sendo imundo, pastoso, escorregadio e repugnante. O ar é pesadíssimo, asfixiante, gelado, coberto por um forte nevoeiro. Os Espíritos que ali habitavam vivem sufocados como se matérias pulverizadas, nocivas mais do que a cinza e o cal lhes invadissem as vias respiratórias. Os raios solares jamais chegam a esse lugar. É um local onde não existem paz, consolo e a esperança. Tudo é marcado pela desgraça, miséria, assombro, desespero e horror. Quem ali habita são grandes vultos do crime e falanges de suicidas. (...)
De outras vezes, tateando nas sombras, lá íamos, por entre gargantas, vielas e becos, sem lograrmos indícios de saída... Cavernas, sempre cavernas - todas numeradas -; ou longos espaços pantanosos quais lagos lodosos circulados de muralhas abruptas, que nos afiguravam levantadas em pedra e ferro, como se fôramos sepultados vivos nas profundas tenebrosidades de algum vulcão! Era um labirinto onde nos perdíamos sem podermos jamais alcançar o fim! Por vezes acontecia não sabermos retornar ao ponto de partida, isto é, às cavernas que nos serviam de domicilio, o que forçava a permanência ao relento até que deparássemos algum covil desabitado para outra vez nos abrigarmos. Nossa mais vulgar impressão era de que nos encontrávamos encarcerados no sub-solo, em presídio cavado no seio da Terra, quem sabia se nas entranhas de uma cordilheira, da qual fizesse parte também algum vulcão extinto, como pareciam atestar aqueles imensuráveis poços de lama com paredes escalavradas lembrando minerais pesados?! (...)
Cada um de nós, no Vale Sinistro, vibrando violentamente e retendo com as forças mentais o momento atroz em que nos suicidamos, criávamos os cenários e respectivas cenas que vivêramos em nossos derradeiros momentos de homens terrestres. Tais cenas, refletidas ao redor de cada um, levavam a confusão à localidade, espalhavam tragédia e inferno por toda a parte, seviciando de aflições superlativas os desgraçados prisioneiros. Assim era que se deparavam, aqui e ali, forcas erguidas, balançando o corpo do próprio suicida, que evocava a hora em que se precipitara na morte voluntária. Veículos variados, assim como comboios fumegantes e rápidos, colhiam e trituravam, sob suas rodas, míseros transloucados que buscavam matar o próprio corpo por esse meio execrável, os quais, agora, com a mente “impregnada” do momento sinistro, retratavam sem cessar o episódio, pondo à visão dos companheiros afins suas hediondas recordações! Rios caudalosos e mesmo trechos alongados de oceano, surgiam repentinamente no meio daquelas vielas sombrias: - era meia dúzia de réprobos que passava enlouquecida, deixando à mostra cenas de afogamento, por arrastarem na mente conflagrada a trágica lembrança de quando se atiraram às suas águas!... Homens e mulheres transitavam desesperados: uns ensangüentados, outros estorcendo-se no suplício das dores pelo envenenamento, e, o que era pior, deixando à mostra o reflexo das entranhas carnais corroídas pelo tóxico ingerido, enquanto outros mais, incendiados, a gritarem por socorro em correrias insensatas, traziam pânico ainda maior entre os companheiros de desgraça, os quais receavam queimar-se ao seu contacto, todos possuídos de loucura coletiva! E coroando a profundeza e intensidade desses inimagináveis martírios — as penas morais: os remorsos, as saudades dos seres amados, dos quais não tinham mais notícias, os mesmos dissabores que haviam dado causa ao desespero e que persistiam em afligir!... E as penas físico-materiais: a fome, o frio, a sede, exigências fisiológicas em geral, torturantes, irritantes, desesperadoras! a fadiga, a insônia depressora, a fraqueza, o delírio!”

PARTE IX

Suicida não é obsessor

“Suicida não é obsessor, é um doente necessitado que as Casas Espíritas devem tratá-lo com respeito; que eles recebam de Deus e Jesus cuidados mais que especial; que o homem precisa prevenir-se contra o suicídio, pois dias virão em que irão aumentar, por causa da fome, do desespero, da droga, da miséria, do abandono, dos vícios e da traição.
O Brasil é um país onde o número de suicídios ainda é baixo, mas se não contivermos o desemprego, a miséria e a fome, ele ser á daqui algum tempo o campeão mundial de suicídio. Os Espíritas precisam urgentemente orientar a população com folhetos nos logradouros públicos, falando e orientando sobre o suicídio. O homem deve ficar ciente de que não existe a morte e que ninguém é dono de seu corpo; a veste física é um empréstimo da natureza e teremos de devolvê-la um dia, queira Deus intacta. Ninguém pode rasgá-la, nem violentá-la, ela é obra divina emprestada para permanecermos na Terra. O homem não se conhece. No dia em que ele se preocupar com seu corpo, ganhará paz, pois se sentirá no seu ombro o peso da responsabilidade e sorrirá feliz por se sentir eterno. A ignorância e a falta de fé levam ao suicídio. O corpo físico é um veículo indispensável para se transitar no plano terreno; destruí-lo é retardar a chegada aos braços de Deus. O suicida sofre antes, durante e depois do ato impensado, pois leva a dor como bagagem. Nossas preces e o nosso respeito são bálsamos para o seu sofrimento. Gostaria que toda a humanidade se conscientizasse do valor da oração aos suicidas, o quanto eles são beneficiados através das nossas preces. (...)
Ele sofre ante do suicídio por estar enfrentando muitas vezes imensa dor, e qual não é sua surpresa quando, com o ato, sente seus padecimentos se agravarem. Nas primeiras horas em que ele percebe que não conseguiu morrer, e continua preso à dor moral e à física, sente-se confuso porque está vivo, o sangue jorrando, a ferida doendo e ele ali, inteiro. Embora tenha adormecido por segundos, o despertar é cruel. O enterro, a arma, o povo falando, e ele ali, junto ao corpo físico; o ar lhe falta, o odor é fétido; busca a ferida, ela é sangrenta e dolorida. Agora sofre, além da dor moral, e ainda mais, a dor física. Depois do suicídio, busca outra vez a morte e, em desespero, constata que aumentou a sua dor. Muitas vezes o suicida não larga o corpo físico e, junto às vísceras putrefatas, não compreende por que cheira mal, e conclui que o túmulo agora ‚ sua prisão; antes era a tristeza. Quando consegue se ver livre da cova, leva-a gravada na mente. É a dor, o desespero de um suicida. Como ignorá-lo? Como condenar um irmão em sofrimento? O mais acertado a fazer é orar por ele, abraçá-lo nas nossa preces para que se renove e encontre a paz.”

Tatiana - Um amor dividido
“Julgava eu que agora nos dirigíamos para o Vale do Brilho, em busca de Celso e do Gino, mas logo compreendi o porque do Rayto no vale se encontrar: ele buscava uma garota de seus treze anos que se debatia em convulsões: havia desencarnado ingerindo vários comprimidos. Ao nos aproximarmos, percebemos que Tatiana, mesmo com o seu corpo perispiritual bem distante do cemitério, sentia tudo o que se passava com o seu corpo físico em decomposição; estava solidamente unida a ele pelas leis naturais da afinidade, que a morte forçada não destrói. O espírito eterno e sua veste perispiritual permaneciam ligados ao corpo físico chagado pelos vermes; e o espírito de Tatiana sofria em desespero este martírio.

- Mas ela ‚ uma criança!O que a levou a isso? indaguei.
- Os pais, respondeu Karina.
- O quê? Os pais?
- Sim. Tatiana foi criada com um amor incontrolável dos pais, Celina e Clodoaldo, recebendo educação esmerada e ganhando tudo o que desejava. Mas veio a separação dos dois e com ela iniciou-se o descontrole da garota, começando sua agressividade, para chamar a atenção dos pais. Depois, sentiu-se dividida, não sabia a qual deles agradar. Se se demorava junto da mãe, Clodoaldo reclamava, dando-se o mesmo que com Celina. No meio desse desajuste, só encontrou um caminho: a morte.
Lá estava ela, a criança disputada como um objeto e não amada. Diz Francisca Theresa: “o ciúme é um amor sem asa”. Aquele casal matou os sonhos e a esperança de sua filha. Agora, jogada ali, nossa Tatiana debatia-se num mar de sofrimento. Enoque a tomou no colo para levá-la. O seu olhar, antes de pânico, logo se acalmou ao fitar o semblante do oriental. Cerrou os olhos e suspirou. Sem uma palavra, nós o seguíamos. Ao chegar à porta de uma das tendas, foi recebida pelo Irmão Ângelo e este companheiro deitou Tatiana em uma cama toda banhada de azul. Ele iniciou o tratamento da garota. Primeiro tentou limpar a sua mente - nela estava impregnado o momento dramático que retratava, sem parar, o episódio. Notamos que no corpo espiritual se encontravam fragmentos do cordão luminoso, arrebentado, à semelhança de fios elétricos despedaçados, dispersando os fluidos que a equipe ia logo organizando. Esses fluidos foram trabalhados pelos médicos, pois neles estava o desequilíbrio do espírito de Tatiana.
Observei atentamente aqueles fios despedaçados e compreendi a importância dos fios magnéticos para um espírito, são eles que ligam o espírito à matéria física e lhe oferecem a vida. Na morte natural, ele é desatado com amor por equipes divinas. Com o suicídio, ele é partido e não desatado, violentamente arrancado, estraçalhado, quando ainda está com toda força magnética. É nele que estão concentrados os fluidos vitais para uma longa vida terráquea. Não é Deus que castiga um suicida, é ele mesmo o que mata suas oportunidades de vida; ao explodir o cordão fluídico ele está destruindo a asa que o alçaria ao mundo espiritual sem as dores da matéria. Ao desatar o nó do cordão fluídico, a equipe divina dá condição ao espírito de decolar. E ele se vê livre da matéria. No suicídio inconsciente, ou no consciente, o laço não se desfaz, rompe-se, e a separação não se processa facilmente. Com a morte clínica do corpo físico, neste mesmo corpo torna-se para o espírito uma cruz de ferro que pesa e fere, mas que o suicida terá de suportar por um bom tempo.
A jovem sofria, pois na sua mente estavam bem vivos ainda os últimos acontecimentos terrenos: a morte, o enterro, o túmulo e o corpo em decomposição. Sentia a dor e o asfixiamento da tumba fechada. Tatiana, dos braços do Rayto, passou para uma confortável cama onde se iniciou o tratamento, sendo submetida a vários exames. O estômago foi recebendo cuidados, depois tomou um banho de ervas medicinais e, logo após, seu corpo foi alvo de tratamento com os mais modernos aparelhos, que me pareceram cauterizadores.
Tatiana fora socorrida, mas outros ali no Vale ficaram. Oramos por todos, pedindo que cada um busque o tratamento divino.”

PARTE X

Fuga comprometedora
“Sem dúvida, a mais trágica de todas as circunstâncias que envolvem a morte, de conseqüências devastadoras para o desencarnante, é o suicídio. Longe de enquadrar-se como expiação ou provação, no cumprimento de desígnios divinos, o auto-aniquilamento situa-se por desastrada fuga, uma porta falsa em que o individuo, julgando-se libertar-se de seus males, precipita-se em situação pior.
“O maior sofrimento da Terra não se compara ao nosso” dizem, invariavelmente, suicidas que se manifestam em reuniões mediúnicas.
Tormentos indescritíveis desabam sobre eles a partir da consumação do gesto lamentável. Precipitados violentamente na Espiritualidade, em plena vitalidade física, revivem, ininterruptamente, por largo tempo, as dores e emoções dos últimos instantes, confinados em regiões tenebrosas onde, segundo a expressão evangélica, “há choro e ranger de dentes”.
Um dos grandes problemas do suicida ‚ o lesionamento do corpo perispiritual. Aqueles que morrem de forma violenta, em circunstâncias alheias à sua vontade, registram no perispirito marcas e impressões relacionadas com o tipo de desencarne que sofreram. São, entretanto, passageiras e tenderão a desaparecer tão logo ocorra sua plena reintegração na vida espiritual.
O mesmo não ocorre com o suicida, que exibe na organização perispiritual ferimentos correspondentes à agressão cometida contra o corpo físico. Se deu um tiro no cérebro terá grave lesão na região correspondente; se ingeriu soda cáustica experimentará extensa ulceração à altura do aparelho digestivo; se atirou-se diante de um trem exibirá traumas generalizados.
Tais efeitos, que contribuem em grande parte para os sofrimentos do suicida, exigem, geralmente, um contato com nova estrutura carnal, na experiência reencarnatória, para serem superados. E fatalmente se refletirão nela. O tiro no cérebro originará dificuldades de raciocínio; a soda cáustica implicará em graves deficiências no aparelho digestivo; o impacto violento sob as rodas do trem ensejará complexos quadros neurológicos...
Como ocorre em todos os casos de morte violenta, o suicida experimentará inexitável agravamento de seu padecimentos na medida em que a família mergulhe no desespero e na inconformação, exacerbados, não raro, por complexos de culpa.

“Ah! Se tivéssemos agido diferente! Se lhe déssemos mais atenção! Se procurássemos compreendê-lo!”
Inútil conjecturar em torno de fato consumado. Diante de um ferido, em grave e inesperado desastre, seria contraproducente estarmos a imaginar que poderia não ter acontecido se agissemos diferente. Aconteceu! Não pode ser mudado! Imperioso manter o equilíbrio e cuidar do paciente.
O mesmo ocorre com o suicida. Ele precisa, urgentemente de auxilio. Indispensável que reajamos ao desespero e cultivemos a oração. Esta é o bálsamo confortador, o alento novo para seus padecimentos no Além, o grande recurso capaz de reerguê-lo.
E se nos parece desalentador atentar às prolongadas e penosas experiências do companheiro que partiu voluntariamente, consideremos que seus sofrimentos não serão inúteis. Representarão para ele um severo aprendizado, amadurecendo-o e habilitando-o a respeitar a Vida e a voltar-se para Deus.”

PARTE XI

O sofrimento pós-morte
O verdadeiro sofrimento começa no momento do suicídio. Todas as narrativas das vítimas são unânimes nas descrições das dores ligadas ao gênero de morte escolhida:

- Por veneno corrosivo: sensação fortíssima de queimadura destruindo todo o esôfago, o estômago e os intestinos.
- Por projétil de arma de fogo na região da cabeça: a dor do ferimento é permanente, impedindo o raciocínio, onde o sangue fica jorrando o tempo todo.
- Por afogamento: asfixia, falta de ar, a ânsia desesperada de respirar.
- Por enforcamento: a Entidade revive, no Plano Espiritual, os mesmos sintomas ligados ao afogamento e, ao mesmo tempo, como em todos os casos citados, fica revivendo o momento da morte repetidas vezes. Nesse caso, fica tentando se livrar da corda que colocou no pescoço, para ver se consegue respirar melhor, livrando-o da asfixia.
Tudo isto porque a mente edifica e produz. O pensamento é criador, e portanto fabrica, corporifica, retém imagens por si mesmo engendradas, realiza o que passou e, com poderosas garras, conserva-o no presente até quando desejar. O suplício toma vulto maior no pensamento. O Espírito perde a noção do tempo e tem a impressão de que vai sofrer eternamente.

PARTE XII

Conseqüências para uma futura reencarnação
“O Espírito de um suicida voltará a novo corpo terreno em condições muito penosas de sofrimento, agravados pelas resultantes do grande desequilíbrio que o desesperado gesto provocou em seu corpo astral, isto é, no perispirito. E para o seu próprio benefício, terá que repetir o programa terreno que deixou de executar. (...)
Na Espiritualidade raramente o suicida permanecerá durante muito tempo. Em alguns casos, os considerados mais graves são encaminhados para a reencarnação imediata, onde completará o tempo que lhe faltava para o término da existência que cortou. Conquanto muito dolorosas, mesmo anormais, tais reencarnações serão preferíveis às desesperações de além-túmulo, evitando grande perda de tempo ao paciente. Veremos então homens deformados, mudos, surdos, com problemas mentais,... É um caso de vibrações, tão somente. O perispírito não teve forças vibratórias para modelar a nova forma corpórea, a despeito do auxilio recebido dos técnicos do mundo invisível. Assim, concluirão o tempo que lhes faltava para o compromisso da existência prematuramente cortada, corrigirão os distúrbios vibratórios e, logicamente, sentir-se-ão aliviados”.

PARTE XIII

Suicídio: A covardia moral
“A calma e a resignação, hauridas na maneira de encarar a vida terrestre e na fé no futuro, dão ao Espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio. (...)

Aquele que está certo de não ser infeliz senão por um dia, e de serem melhores os dias seguintes, tem facilmente paciência; ele só se desespera se não vê termo para seus sofrimentos. Que é, pois, a vida humana em relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas para aquele que não crê na eternidade, que crê que tudo nele se acaba com a vida, se está oprimido pelo desgosto e pelo infortúnio, não vê seu termo senão na morte; não esperando nada, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar suas misérias pelo suicídio.

A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as idéias materialistas, numa palavra, são os maiores excitantes ao suicídio: elas dão a covardia moral”.

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