08 novembro 2006

MATERIALISMO E PANTEÍSMO

Apesar de todas as razões que levam convictamente à crença de que Deus existe, como causa transcendente necessária do Universo, com os atributos de suprema inteligência, onipotência, bondade e justiça perfeitas, e infinito em todas as suas perfeições, há homens, e sempre os houve, que negam a Divina existência. O seu ateísmo disfarçado ou sincero, mas que é sempre consequência da arrogância, da presunção e do orgulho, leva-os a negar a existência de todo Espírito no Universo, tanto o Espírito Divino como o que em si mesmos existe e é a sede da própria inteligência e da consciência de cada um; isto é, negam a existência da alma humana como individualidade independente da matéria corporal e a ela sobrevivente, considerando-a apenas como resultante da organização cerebral altamente evoluída do Homo Sapiens. São ateus e materialistas, profitentes do mais radical materialismo.
Materialismo é a doutrina filosófica segundo a qual não existe essencialmente no Universo coisa alguma além da matéria, quer como causa, quer como efeito. Implica um sistema dos mundos em que o fundamento único é a matéria, incriada e eterna, isto é, existente por si mesma, necessária e suficientemente, sem interferência alguma de Deus. Os que a professam são filósofos, quer dizer, refletem sobre os conhecimentos adquiridos pelas experiências objetivas, as realidades visíveis e palpáveis, suscetíveis de ser atingidas pela observação direta e a experimentação, sobre os movimentos universais que animam todas as coisas; já chegaram até às realidades invisíveis e impalpáveis como os átomos, as radiações energéticas, as vibrações e as ondas que se propagam através do Cosmos, mas nada concebem para tudo isso senão um substrato material submetido a leis cegas, não emanadas de uma inteligência diretora e criadora. É muito antiga essa concepção, vem desde os primeiros filósofos gregos e prossegue em toda a Antiguidade Greco-Romana.
Traçaremos, a seguir, um esboço das idéias materialistas ao longo da história humana, de maneira que possamos entender o significado delas.
O materialismo, como doutrina, ensino ou escola, nasce, praticamente, com Tales de Mileto, na Antiga Grécia, por volta do século VI a .C. O materialismo dos filósofos jônicos inclui algumas teses que se tornarão características de todo o materialismo posterior: 1) a filosofia deve explicar os fenômenos não por meio de mitos religiosos, mas pela observação da própria realidade; 2) a matéria, incriada e indestrutível, é a substância de que todas as coisas se compõem e à qual todas se reduzem; 3) a geração e a corrupção das coisas obedecem a uma necessidade não sobrenatural, mas natural, não ao destino, mas às leis físicas; 4) a matéria não é estática, mas se acha em constante movimento, em permanente metamorfose; 5) a experiência sensível é a origem do conhecimento; 6) a alma faz parte da natureza e obedece às mesmas leis que regem o seu movimento.
Para Tales, a substância primordial é a água, para Anaxímenes, o ar, e para Anaximandro, a matéria indeterminada. Todos os fenômenos da natureza consistem em transformações do mesmo princípio material, independentemente de qualquer interferência divina (...). O pensamento consiste em dizer a verdade após ter penetrado a natureza e suas leis, e a sabedoria consiste em viver de acordo com essas leis. (...)
Para Anaxágoras, a natureza se constitui de homeomerias, unidades que contêm os elementos de todas as coisas em proporções infinitesimais (...). Demócrito, (...) sustenta que o princípio de todas as coisas são os átomos. Tudo o que existe é material, e a matéria que constitui os átomos é qualitativamente idêntica, determinando os diferentes fenômenos da natureza em função da diversidade quantitativa dos átomos (forma, dimensão e ordem). As transformações que se observam na natureza consistem em associações e dissociações de átomos.
A alma humana, feita também de átomos, está sujeita à decomposição e à morte. (...) A natureza se explica por si mesma, e os acontecimentos que hoje se produzem, dizia Demócrito, não têm causa primeira, pois preexistem de toda a eternidade no tempo infinito, contendo, sem exceção, tudo o que foi, é e será. (...)
Em tese, foram estas as idéias materialistas reinantes até o século XIII, havendo em contraposição as escolas espiritualistas - sobretudo a platônica e a neoplatônica - e aquelas que tentavam conciliar o materialismo com a teologia, como a escola aristotélica.
No longo período que constitui a Idade Média, o materialismo foi sofrendo algumas alterações, porém sempre rejeitando a idéia de um Criador supremo para todas as coisas.
Segundo Francis Bacon (1561-1626), (...) As ciências físicas e naturais constituem, a seus olhos, a verdadeira ciência. (...) Por sua vez Hobbes (1588-1679) cria um sistema materialista perfeitamente coerente. Concebendo o mundo à maneira de Descartes, a geometria como paradigma do pensamento lógico e a mecânica de Galilei como ideal da ciência da natureza, considera o mundo um conjunto de corpos materiais, definidos geometricamente, por sua forma e sua extensão. O homem é um corpo, como os demais, a alma não existe e os organismos não passam de engrenagem do mecanismo universal.
Vivendo no período de 1632-1704, John Locke nega as idéias inatas e afirma que todas as idéias humanas têm origem na experiência.
No século XVIII, Julien Offroy de la Mettrie (1709-1751), filósofo sensualista, afirma que o prazer e o amor-próprio são os únicos critérios da vida moral e, também, que os fenômenos psíquicos resultam de alterações orgânicas no cérebro e no sistema nervoso. Outro filósofo da época, considerado o precursor ideológico da Revolução Francesa, materialista e ateísta intransigente, defende a tese de que todas as idéias são sensações provocadas pelos objetos materiais e a personalidade é produto do meio e da educação. Esse filósofo chamava-se Cloude Adrien Helvétius (1715-1771).
Encerrando o século XVIII, Paul Henri Dietrich (1723-1789), francês de origem alemã, considerava o Cristianismo como contrário à razão e à natureza. Nega as idéias inatas, a existência da alma e de Deus. Vê no comportamento religioso um despotismo político.
No século XIX, surge com Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) o chamado materialismo histórico e dialético. Marxismo é, pois, a doutrina (...) segundo a qual as organizações políticas e jurídicas, os costumes e a religião são estritamente determinados pelas condições econômicas, pelo estado da indústria e do comércio, da produção e das vendas.
Só crêem na matéria! Mas não podem deixar os materialistas de ver a ordem existente no universo, entretanto, admitem uma ordem inteligente existindo sem uma causa inteligente, que a preceda, conceba e a ela presida.
Vejamos o que nos fala Camille Flammarion, em sua obra Deus na Natureza:
(...) De resto, a que se reduz a negação materialista? Buscando o âmago das coisas, percebemos logo que essas negações não podem ser tão absolutamente negativas quanto o pretendem. O insensato não o será jamais impunemente e não é tão fácil, quanto possa parecer, uma convicção profunda no ateísmo. Na maioria dos casos, o que ocorre é o deslocamento da questão e nada mais. Em vez de chamar Deus à direção das forças que regem o mundo, os convencidos de ateísmo deixam de o nomear, e, em vez de atribuir a um ser inteligente a inteligência dessas forças, outorgam-na à própria matéria. Removem, assim, mas não resolvem o problema, pois os fatos continuam irrevogáveis. Negam a Deus, mas não podem negar a força. Apenas, em lugar de proclamarem a soberania dessa força, consideram-na escrava da matéria inerte. (...) Todas as propriedades instintivas ou intelectuais que os nossos adversários não podem deixar de atribuir à matéria para explicar a ação desta, sua tendência progressiva, seu método seletivo, desde a formação do vegetal humilde à formação de um cérebro humano, são atributos que eles extraem do Ignoto que nós denominamos Deus, e que eles homenageiam chamando-lhe matéria. (...) parece-nos absurdo integral a crença de que o Espírito pudesse surgir no cérebro humano e manifestar-se nas leis do Universo, se não existisse de toda a eternidade. (...)
Não é só o materialismo que nega a Deus e a existência do Espírito humano. Há ainda o panteísmo. Para os que professam essa doutrina, entre os quais avulta a mentalidade vigorosa de Spinozza, Deus, sendo embora o Ser Supremo, não é, entretanto, um ser distinto, pois consideram-no resultante da reunião de todas as forças, todas as inteligências do Universo. Sente-se desde logo a inconsistência de uma tal doutrina que, se verdadeira, derrogaria os mais necessários dos atributos de Deus: ser eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.
(...) Esta doutrina (comenta Allan Kardec) faz de Deus um ser material que, embora dotado de suprema inteligência, seria em ponto grande o que somos em ponto pequeno. Ora, transformando-se a matéria incessantemente, Deus, se fosse assim, nenhuma estabilidade teria; achar-se-ia sujeito a todas as vicissitudes, mesmo a todas as necessidades da Humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da Divindade: a imutabilidade. Não se podem aliar as propriedades da matéria à idéia de Deus, sem que ele fique rebaixado ante a nossa compreensão e não haverá sutilezas de sofismas que cheguem a resolver o problema da sua natureza íntima. Não sabemos tudo o que ele é, mas sabemos o que ele não pode deixar de ser, e o sistema de que tratamos está em contradição com as suas mais essenciais propriedades. Ele confunde o Criador com a criatura, exatamente como o faria quem pretendesse que engenhosa máquina fosse parte integrante do mecânico que a imaginou.
A inteligência de Deus se revela em suas obras como a de um pintor no seu quadro; mas as obras de Deus não são o próprio Deus, como o quadro não é o pintor que o concebeu e executou.
Materialismo e panteísmo se confundem, pois, na mesma negação de Deus como o Ser distinto, que é a Inteligência Suprema e a Causa Primária do Universo. (...) Mas, escreve Camille Flammarion, na obra citada, ainda bem que o ateísmo absoluto só pode ser uma loucura nominal, e o Espírito mais negativista não pode, realmente, atribuir à matéria senão o que pertence ao Espírito, criando assim um deus-matéria, à sua imagem e semelhança. Assim, temos visto que, desde o panteísmo místico ao mais rigoroso ateísmo, os erros humanos a respeito da personalidade divina não puderam, senão, velar ou desnaturar a revelação do Universo, sem aniquilá-la. Nosso Deus da Natureza permanece inatácavel, no seio mesmo da Natureza, força intrínseca e universal governando cada átomo, formando organismos e mundos, princípio e fim das criações que passam, luz incriada a brilhar no mundo invisível e para a qual, oscilantes, se dirigem as almas, como a agulha imantada, que não mais repousa enquanto não se encontra identificada com o plano do pólo magnético.

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