09 novembro 2006

A ALMA APÓS A MORTE: Separação da Alma e do Corpo

A certeza da vida futura não exclui as apreensões quanto à desencarnação: Há muitas pessoas que temem não propriamente a vida futura, mas o momento da morte. Seria doloroso esse momento? Como nos sentiríamos?
Tentando elucidar essas questões, Kardec inquiriu os Espíritos e deles recebeu o esclarecimento de que (...) o corpo quase sempre sofre mais durante a vida do que no momento da morte; a alma nenhuma parte toma nisso. Os sofrimentos que algumas vezes se experimentam no instante da morte são um gozo para o Espírito (...).
No entanto é preciso que consideremos que a desencarnação não é igual para todos, há uma variação muito grande, tão grande quanto as diferentes formas de viver adotadas pelos encarnados.
Vendo-se a calma de alguns moribundos e as convulsões terríveis de outros, pode-se previamente julgar que as sensações experimentadas nem sempre são as mesmas. (...)
A separação da alma é feita de forma gradual, pois o Espírito se solta pouco a pouco dos laços que o prendiam, de forma que as condições de encarnado ou desencarnado, no momento do desenlace, se confundem e se tocam, sem que haja uma linha divisória entre as duas. Alguns fatores podem influir para que o desprendimento ocorra com maior ou menor facilidade, fatores que estão relacionados com o estado moral do homem quando encarnado.
(...) A afinidade entre o corpo e o perispírito é proporcional ao apego à matéria, que atinge o seu máximo no homem cujas preocupações dizem respeito exclusiva e unicamente à vida e gozos materiais. Ao contrário, nas almas puras, que antecipadamente se identificam com a vida espiritual, o apego é quase nulo (...).
Em se tratando de morte natural resultante da extinção das forças vitais por velhice ou doença, o desprendimento opera-se gradualmente; para o homem cuja alma se desmaterializou e cujos pensamentos se destacam das coisas terrenas, o desprendimento quase se completa antes da morte real, isto é, ao passo que o corpo ainda tem vida orgânica, já o Espírito penetra a vida espiritual, apenas ligado por elo tão frágil que se rompe com a última pancada do coração.
(...) No homem materializado e sensual, que mais viveu do corpo que o Espírito, e para o qual a vida espiritual nada significa, nem sequer lhe toca o pensamento, tudo contribui para estreitar os laços materiais, e, quando a morte se aproxima, o desprendimento, conquanto se opere gradualmente também, demanda contínuos esforços. As convulsões da agonia são indícios da luta do Espírito, que às vezes procura romper os elos resistentes, e outras se agarra ao corpo do qual uma força irresistível o arrebata com violência, molécula por molécula.
O desconhecimento da vida espiritual faz com que o Espírito se apegue à vida material, estreitando os seus horizontes e resistindo com todas as forças, conseguindo prolongar a vida, e consequentemente sua agonia, por dias, semanas, meses. Nestes casos, a morte não é o fim da agonia, pois a perturbação continua, e ele, sentindo que vive, sem saber definir o seu estado, sente e se ressente da doença que pôs fim aos seus dias, permanecendo com essa impressão indefinidamente, pois está ainda ligado à matéria através de pontos de contato do perispírito com o corpo.
O contrário ocorre com o homem que se espiritualizou durante a vida. Após a morte nem uma só reação o afeta. O despertar na vida espiritual é como quem desperta de um sono tranquilo, lépido, para iniciar uma nova fase de sua vida. Nas mortes violentas, como nos acidentes, nenhuma desagregação há iniciado previamente a separação do perispírito. Neste caso, o desprendimento só começa depois da morte e seu término não ocorre rapidamente. O Espírito fica aturdido, não compreende o seu estado, permanecendo na ilusão de que vive materialmente por período mais ou menos longo, conforme o seu nível de espiritualização.
A separação, nos casos de suicídio, é extremamente dolorosa. Sendo o suicídio atentado contra a vida, o sofrimento quase sempre permanece por período igual ao tempo em que o Espírito ainda deveria estar encarnado.
As dores da lesão física provocada repercutem no Espírito. A decomposição do corpo, sua destruição pelos vermes são sentidas em detalhes pelo Espírito desencarnado. Além disso há o remorso, gerando sofrimento moral para aquele que pensou desertar da vida.
(...) O espírita sério não se limita a crer, porque compreende, e compreende, porque raciocina; a vida futura é uma realidade que se desenrola incessantemente a seus olhos; uma realidade que ele toca e vê, por assim dizer, a cada passo e de modo que a dúvida não pode empolgá-lo, ou ter guarida em sua alma. A vida corporal, tão limitada, amesquinha-se diante da vida espiritual, da verdadeira vida. Que lhe importam os incidentes da jornada se ele compreende a causa e utilidade das vicissitudes humanas, quando suportadas com resignação? A alma eleva-se-lhe nas relações com o mundo visível; os laços fluídicos que o ligam à matéria enfraquecem-se, operando-se por antecipação um desprendimento parcial que facilita a passagem para a outra vida. A perturbação consequente à transposição pouco perdura, por que, uma vez franqueado o passo, para logo se reconhece, nada estranhando, antes compreendendo, a sua nova situação.

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