29 outubro 2006

O ARREPENDIMENTO E O PERDÃO

 

"(...) Muito frequentemente interpretamos o perdão como sendo simples ato de virtude e generosidade, em auxílio do ofensor, que passaria a contar com absoluta magnanimidade da vítima (...).

Urge perceber, no entanto, que, quando conseguimos desculpar o erro ou provocação de alguém contra nós, exoneramos o mal de qualquer compromisso para conosco, ao mesmo tempo que nos desvencilhamos de todos os laços suscetíveis de apresar-nos a ele. (...)"

A mágoa retida é doença para o Espírito, que lhe corrói as forças físicas e envenena a alma. É necessário, para a própria paz, ante quaisquer ofensas, perdoar sempre.

Evidentemente, não aquele perdão proveniente apenas dos lábios, a se traduzir por mera fórmula social. O ato de perdoar deve ser um ato carregado de sentimento; deve ser puro, pois que proveniente do coração. É, sobretudo, uma forma de reconciliação. É necessário perdoar incessantemente, por isto Jesus disse a Pedro (Mateus, 18:15,21,22) que não se deveria perdoar apenas sete vezes, mas setenta vezes sete vezes.

"(...) Há, porém, duas maneiras bem diferentes de perdoar: uma, grande, nobre, verdadeiramente generosa, sem pensamento oculto, que evita, com delicadeza, ferir o amor próprio e a suscetibilidade do adversário, ainda quando este último nenhuma justificativa possa ter; a segunda, é a em que o ofendido, ao aquele que tal se julga, impõe ao outro condições humilhantes e lhe faz sentir o peso de um perdão que irrita, em vez de acalmar; se estende a mão ao ofensor, não o faz com benevolência, mas com ostentação, a fim de poder dizer a toda gente; vêde como sou generoso! Nessas circunstâncias, é impossível uma reconciliação sincera de parte a parte. Não, não há aí generosidade; há apenas uma forma de satisfazer ao orgulho. (...)"

No convívio familiar somos, constantemente, chamados a perdoar. Isto porque estamos diante de antigos desafetos de outras experiências reencanatórias, a se apresentarem, hoje, sob a forma de cônjuges, filhos ou familiares próximos. "(...) Precisamos muito mais de perdão, dentro de casa, que na arena social, e muito mais de apoio recíproco no ambiente em que somos chamados a servir, que nas avenidas rumorosas do mundo.

Em auxílio a nós mesmos, todos necessitamos cultivar compreensão e apoio construtivo, no amparo sistemático a familiares e vizinhos, chefes e subalternos, clientes e associados, respeito constante à vida particular dos amigos íntimos, tolerância para os entes amados, com paciência e olvido diante de quaisquer ofensas que assaltem os corações. (...)"

Assim agindo, teremos condições de entender o perdão de Deus para com todos nós. "(...) Ele perdoa concedendo ao devedor ou culpado prazo ilimitado, e facultando-lhe meio e possibilidades de resgatar o débito.

Ora, que mais pode desejar um devedor honesto e probo?

Seria, acaso, preferível que Deus dispensasse os devedores do pagamento de suas dívidas?

Certamente que não, por dois motivos ponderáveis.

Primeiro, porque é muito mais digno e nobre, para o devedor, pagar o seu débito, do que eximir-se desse dever por complacência, misericórdia ou compaixão do credor. (...) Outra razão não menos digna de nota é a seguinte: na luta empregada para preparar a culpa cometida, o Espírito desenvolve seus poderes de maneira que, no fim da refrega, se sente com suas faculdades aumentadas e, não raro, desdobradas em novas capacidades. (...)"

Deus está sempre disposto e nos perdoar e, "(...) a sua maneira de perdoar consiste em conceder prazo largo, e ao mesmo tempo, proporcionar ao devedor todas as possibilidades e meios de pagamento. (...)"

Devemos, porém, compreender que o perdão não é uma graça concedida por Deus. Há necessidade de uma atitude sincera e efetiva de arrependimento com a consequente rogativa do perdão.

O arrependimento é o reconhecimento verdadeiro pelo próprio infrator do mal ou erro cometido. É a confissão íntima e constrita da violação das leis morais, revelando-se não só pela insatisfação do ato, como o empenho de repará-lo e não mais incidir no mesmo cometimento.

"O arrependimento sempre se manifesta na consciência em débito para com a vida.

A princípio, ei-lo como lembrança da falta cometida de que já se não supunha existir qualquer sinal; posteriormente, a recordação do momento infeliz que se estabelece, mais tarde, a idéia rediviva dominante e por fim a obsessão do remorso, avassaladora".

"(...) O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação.

Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação: só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.

O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo: se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo. (...)"

Respondem os Espíritos a Kardec (questão 991 de O Livro dos Espíritos) que o efeito do arrependimento é o de "(...) desejar o arrependido uma nova encarnação para se purificar. O Espírito compreende as imperfeições que o privam de ser feliz e por isso aspira a uma nova existência em que possa expiar suas faltas."

A concessão renovadora para o infrator, traduzindo o perdão divino, somente se efetiva com a aceitação da programação cármica, pelo perdoado.

"(...) A expiação se cumpre durante a existência corporal, mediante as provas a que o Espírito se acha submetido e, na vida espiritual, pelos sofrimentos morais, inerentes ao estado de inferioridade do Espírito".

Após a expiação dos erros passados, vem, finalmente, o resgate. "A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má-vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contacto com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. (...) Praticando o bem em compensação ao mal praticado, isto é, tornando-se humilde se se tem sido orgulhoso, amável se se foi austero, caridoso se se tem sido egoísta, benigno se se tem sido perverso, laborioso se se tem sido ocioso, útil se se tem sido inútil, frugal se se tem sido intemperante, trocando em suma, por bons os maus exemplos perpretados. E desse modo progride o Espírito, aproveitando-se do próprio passado".

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